
RJ-2007 - by Crau
'Não fosse pela companhia [Skanska], eles ainda estariam vivendo de bananas e não conhecer nada além da floresta – exato como são os macacos. A despeito de tudo, esta ainda é uma república de bananas subdesenvolvida'.]
As extensas e ambientalmente destrutivas operações da construtora sueca Skanska na América Latina são pouco conhecidas na Europa. Longe da companhia amigável à natureza que ela alega ser, o discurso cosmético sobre o desenvolvimento e progresso que permeia a companhia de capital 100% sueco é racista e colonialista na prática.
Por mais ou menos mais de um ano e meio, a base da Skanska está localizada fora da cidade do petróleo de Coca na destroçada província de floresta úmida tropical de Orellana. As atividades da companhia, conduzidas em cooperação com as companhias petrolíferas em vários campos na região são controlados daqui. Um dos gerentes regionais da Skanska na bacia amazônica é Milton Diaz, um homem com muitas décadas de experiência na indústria do petróleo. Ele trabalhava para a Skanska em sua terra natal, Argentina, onde a sede continental da empresa se localiza.
De uma série de encontros e entrevistas com Diaz e seus colegas realizada no Equador, (a partir da primavera de 2006) pela cientista política Hanna Dahlström e eu, montamos um quadro coeso dos líderes da Skanska. As opiniões expressas por Diaz representam um racismo cultural, no qual a população do Equador no geral e em particular os povos indígenas são descritos em termos bastantes pejorativos. 'O povo aqui da floresta deveria ser grato ao invés de apenas reclamar e fazer exigências absurdas”, ele argumenta. 'Não fosse pela companhia, eles ainda estariam vivendo de bananas e não conhecer nada além da floresta – exato como são os macacos. A despeito de tudo, esta ainda é uma república de bananas subdesenvolvida'.
Infelizmente, as opiniões de Diaz não são incomuns. O discurso racista ao qual dá voz está alinhado com as perspectivas convencionais de companhias do hemisfério norte sobre a cultura e desenvolvimento do Sul global. Conceitos como 'estúpidos', 'república das bananas' e 'baixa cultura' são levados a simbolizar os Outros, que são locais e assim-chamados subdesenvolvidos. 'Tudo o que as pessoas pensam por aqui é ficar de papo pro ar e procurando prazeres. Ninguém assume responsabilidade por nada… Eles não percebem que as companhias deram tudo a eles. Estradas, pontes – tudo o que vemos à nossa volta', diz Milton Diaz, abrindo seus braços largamente para mostrar uma vasta área industrial onde um dia ficou a floresta úmida tropical.
O mito corporativo do desenvolvimento sustentável
De acordo com a Skanska, seu objetivo é promover 'desenvolvimento sustentável' praticando as alternativas mais amigáveis à natureza possíveis. Contudo, essas visões são obviamente e inteiramente dependentes de regulamentação externa. Victor Vazquez é o gerente ambiental da Skanska na mesma região em que Diaz trabalha. Vazquez alega que a Skanska queima gases tóxicos (produtos de escória) ao ar livre, mesmo sendo esse um procedimento extremamente poluidor. A explicação de Vazquez para esse comportamento é que o Estado equatoriano não tem os recursos para operacionalizar leis ambientais pertinentes a tamanha falta de consideração ambiental. 'O Equador não é ainda desenvolvido assim, e não há incentivo para investimentos em tecnologia melhor. Em outros países, como a Argentina, naturalmente, usamos as melhores tecnologias disponíveis', diz.
De acordo com petroleiros do Bloco 18, onde a companhia sueca trabalha com a gigante brasileira do petróleo, Petrobras, a queima de gás no campo é tão extensiva que não há nada vivo à vista. Isto, se nada mais, confirma que a tecnologia amigável à natureza e o desenvolvimento sustentável com os quais a Skanska quer ser associada não são nada além de propaganda.
Um outro argentino em posição de gerência na Skanska na região amazônica é Oswaldo Contreras. Ele também, francamente admite que a extração de petróleo sempre tem um número de lados negativos sujos. 'Perfuração de petróleo nunca tem como ser amigável à natureza. Mas é uma dessas coisas com as quais se tem de viver', ele diz, dando de ombros.
Diferente da população local, que é forçada a conviver com a poluição, Contreras não tem que se preocupar com encontrar petróleo em sua água de beber. Nem tem ele de se preocupar com o alto risco de desenvolver qualquer dos oito tipos de câncer relacionados ao petróleo ou vários outros problemas de saúde associados com as emissões da indústria do petróleo na região amazônica. E exatamente como Milton Diaz, Contreras argumenta em termos de benefícios que a população recebe pela presença da indústria. 'Skanska', ele se vangloria, 'construiu uma estrada para a população local em Campo Bermejo na fronteira colombiana. Esse é o tipo de coisa que chamamos de compensação…'
Extorsão e mentiras
De acordo com o inspetor ambiental Marcos Baños, chefe da autoridade ambiental em Coca e na província de Orellana, Skanska comporta-se de maneira suspeita e mostra grande desrespeito na região. Baños diz que representantes da companhia têm visitado a autoridade para se oferecer para executar 'projetos'. 'Eu considerei isso extorsão', explica o inspetor ambiental. Baños relata mais à frente que a Skanska é uma das companhias mais escorregadias que ele tem que lidar em seu trabalho. E é difícil duvidar do que ele diz, já que a informação que ele tem sobre a Skanska inegavelmente complementa a figura de uma companhia que tenta falsificar para driblar as leis e regulamentos a qualquer preço. Ele não está sozinho ao retratar a Skanska na região amazônica.
Raul Vega, no escritório ambiental provincial em Coca, acrescenta mais escândalos às histórias nebulosas sobre a Skanska. Ele também está bastante desapontado com o modo de operação da Skanska no Equador – mostrando nenhuma consideração pelas pessoas ou leis ambientais e completa falta de respeito pelas agências governamentais e povos indígenas. 'Oswaldo Contreras foi a primeira pessoa da Skanska que contatamos', Vega explica, 'e ele se recusou a dar a informação que requeremos. Se apenas eles tivessem nos mostrado que tinham feito estudos ambientais, teríamos dado a permissão… Mas não foi até uma ocasião no futuro que a Skanska submeteu qualquer informação a nós. E a informação mesmo acabou provando ser falsa. A companhia alegou que tinha realizado estudos ambientais, o que foi uma completa mentira'.
Quando o Business criou a Terra
De acordo com os gerentes regionais da Skanska, é graças à companhia que os povos indígenas finalmente têm a sua oportunidade de se civilizarem. Esta visão não é exclusiva de líderes corporativos em países em desenvolvimento, mas compartilhada por ideólogos neoliberais na Europa – como Johan Norberg, cuja atitude para com culturas não-industrializadas é igualmente crassa e preconceituosa. O livro de Norberg, När Människan Skapade Världen ('Quando O Homem Criou O Mundo', Timbro: 2006) expressa uma assustadora falta de entendimento para culturas não-industrializadas cujos países estão ocupados por companhias ocidentais como Skanska e gigantes inescrupulosos do petróleo. De acordo com Norberg, a globalização, o livre mercado e a produção industrial são uma receita universal para o bem-estar social e a felicidade. Porque, no mundo de Norberg a história humana tem sido consistentemente 'uma história de miséria sem fundo' – uma perspectiva que não só é ignorante, como também leva a um etnocentrismo letal quando adotado por grandes companhias para justificar seu comportamento de rapina no hemisfério sul. 'No início, todos éramos países em desenvolvimento', argumenta Norberg, sem se preocupar com a dominação imperialística que regularmente destrói culturas aborígines que desesperadamente lutam pela sobrevivência, contra corporações multinacionais e governos corruptos.
Contudo, a atitude de Norberge da Skanska é tanto incorreta quanto racista. De acordo com os povos indígenas, sua cultura não é subdesenvolvida e suas vidas não eram miseráveis antes que as companhias lançassem sua 'Operação Civilização' na selva. Ao contrário, é o conceito de desenvolvimento ocidental que representa a morte e destruição na bacia amazônica.
Diferente de Johan Norberg, o qual a despeito de uma carreira bem-sucedida como escritor só consegue distorcer perspectivas, companhias como a Skanska infelizmente têm um poder físico junto a culturas que tenham o azar de ficar em seu caminho. E sob as relações desiguais entre populações, grandes companhias, sociedades civis e estados, especialmente no hemisfério sul, Skanska mostrou representar retrocesso cultural e ecológico ao invés da 'responsabilidade social' e 'desenvolvimento sustentável' que ela alega oferecer ao mundo.
Hoje, há uma importante luta pelo futuro e a resistência crucial contra a exploração do petróleo em ecossistemas sensíveis e em territórios indígenas. Redes que lutam contra a indústria devastadora na América Latina são a Oilwatch, a equatoriana Acción Ecologica e Frente de Defensa de la Amazonia (FDA). Survival International é uma outra organização com e pelos povos tribais em volta do mundo.
Por Agneta Enström
Blog de denúncia da Skanska: www.skamska.blogg.se
Oilwatch: www.oilwatch.org
Acción Ecologica: www.accionecologica.org
Frente de Defensa de la Amazonia: www.texacotoxico.com
Survival International: www.survival-internacional.org
Tradução: Matias Romero
agência de notícias anarquistas-ana
silêncio
o passeio das nuvens
e mais nenhum pio
Alonso Alvarez







